Terça-feira, Abril 18, 2006

O meu melhor amigo

Tinha escolhido aquela esplanada por causa das espreguiçadeiras viradas para o mar. Costumo ir lá para ler, olhar o mar, ou simplesmente ver quem passa. Está-se muito bem aqui.
Engraçado...a primeira vez que aqui vim vi a namorada dele e lembrei-me de nós. Não nos víamos há uns 10 anos.
“Sofia, então? Estás igual...”
“Miguel, há tanto tempo. Bem, deixa-me que te diga que tu estás bem melhor...”
“Parva.. ao fim destes anos todos deu-te para me elogiares? Onde estão os nomes feios?”
“Não sejas estúpido. Não te vejo há séculos, elogio-te e ainda me chamas parva? Então...sabes bem como és, não te faças modesto”

A nossa amizade era engraçada, sem duvida. Descomprometidos, a sair todas as noites juntos como melhores amigos inseparáveis. Aos olhos dos outros éramos um casal. Ele fazia-me acreditar que me via como um gajo e eu tentava enganar-me a mim mesma ao vê-lo como uma gaja, quando no fundo o que eu gostava era de o ter ao meu lado a todas as horas. Eu fazia investidas sedutoras ao sentar-me ao seu colo, ele acariciava-me... sempre como os melhores amigos, pois claro, porque apesar dos olhares dizerem o contrário, as acções demonstravam que não queríamos estragar a amizade por causa de uma queca.
Um naco destes como melhor amigo, tenho a fama de o andar a papar e nada?? Ta mal!!!

Hoje, naquela esplanada e a lembrar-me desse ultimo encontro, ainda senti mais vontade de o rever. A vida encarrega-se de nos guiar para caminhos diferentes. Ele foi viver com a namorada e eu fiquei até agora com ele “entalado” na memória (antes fosse noutro lado).

“Queres ir tomar um café?”
“Não posso, tenho compromissos, mas olha, se estiveres mesmo com vontade de me aturar, podemos ir jantar, à praia, que dizes?”
“Óptimo, boa ideia”
“às 7? É Verão, vemos o pôr do sol”
“Lá estarei, Sofia. Gostei de te rever”
“Eu também gostei muito de te rever.”

Ali estava eu, na esplanada, conforme combinado, à espera dele. Chegou atrasado, como sempre, mas como sempre também, a ele desculpo tudo. Foi o melhor amigo que sempre tive. Ao meu lado em tantas horas boas e más. Arranjávamos casos um ao outro, mas notávamos o ciúme mal disfarçado em cada um de nós. Se calhar por isso é que quando ele arranjou a namorada tratei de me afastar estrategicamente com a colocação no Porto. Olhos que não vêem coração que não sente.

Calças de ganga a acentuar aquele rabo fantástico que tantas vezes apalpei ‘só como amiga’, uma camisa preta por fora das calças que evidenciava o tom dourado da pele. O cabelo, como sempre conheci: curto como usava nos pára-quedistas. Nos pés...nem reparei.
“Desculpa o atraso” disse
“Ainda não me esqueci das secas, Miguel“ ele sorriu exactamente com a mesma expressão de menino maroto que lhe conhecia.

“estás muito bonita”
“Obrigada”

Provocadoramente escolhi umas sandálias pretas de salto alto, uma saia preta curta e uma túnica de seda da mesma cor, quase do tamanho da saia, com um decote em ‘V’. As pernas luziam do creme hidratante. Afinal os gostos não mudaram. Sabia que ía gostar.O jantar foi uma gargalhada pegada, até parecia que os anos não tinham passado, tal era a cumplicidade. O vinho era delicioso, a comida fantástica, a companhia...a melhor. E os olhares... os mesmos de sempre.
“Vamos beber um copo?”
“Vamos, olha, queres ir conhecer o bar do Mané?”
“Claro”
Fomos no carro dele. O silêncio instalou-se durante alguns segundos, até ele começar a conduzir. O bar fica no meio da serra, o caminho é sinuoso e escuro. Mais alguns silêncios, agora mais prolongados e eu olhava-o e sorria, enquanto ele simulava concentração na condução.
Uma guinada no volante sobressaltou-me. Ele imobilizou o carro na berma da estrada, virou-se para mim apoiando o braço esquerdo no volante:
“Sofia, não nos vemos há 10 anos, continuamos iguais. Vamos continuar a disfarçar, ou assumimos o que sentimos como dois adultos?”
“Miguel, eu...”
E num repente inclina as costas do meu banco, empurra-o para trás ao máximo e depois de passar por cima da manete das mudanças, ajoelha-se entre as minhas pernas. A saia curta...oportuna... só puxar para cima. Acaricia-me as coxas.

Tudo se passou muito rapidamente: ele despiu apressadamente as calças, eu apoiei os meus pés no tablier e...a junção das bocas, dos corpos, foi desejo e tesão acumulado 10 anos. Os vidros embaciaram, os corpos suaram, o carro abanou e as poucas luzes de outros carros que passaram eram indiferentes para nós.

Finalmente tive o prazer (no verdadeiro e... oh que verdadeiro sentido da palavra) de tirar as duvidas que tinha acerca dele como amante. Superou todas as minhas expectativas: a preocupação dele comigo como amigo foi transportada para o interior daquele carro, ao preocupar-se comigo como amante.

Depois...depois veio o meu cigarro que ele sempre detestou, como bom desportista. O bar do Mané ficará para outro dia. Quem sabe, talvez daqui a mais uns 10 anos.O regresso não foi nada constrangedor como eu receava por sermos amigos. Combinámos que iríamos almoçar um dia destes.Se iremos ou não, não sei.O que sei é que há amizades quem nem o tempo nem o sexo destroem.

Resolvi voltar a mostrar este texto que lhe dediquei, porque o revi um dia destes nesta esplanada, onde vou e onde imaginei este encontro.