No Metro (parte I)
Não é muito normal eu utilizar o metro, mas naquela dia não tive outra hipótese. A viagem também não era muito grande, do Rato até ao Campo Grande.A carruagem não estava muito cheia, apesar de no banco onde me sentei estarmos 3 pessoas. À minha frente ia um rapaz novo, bem giro por sinal, o que até me fez pensar que acompanhada desta forma a viagem até se fazia bem. Ao meu lado ia uma senhora já com alguma idade que teimava em segurar a cabeça que por sua vez teimava em pender rendida ao sono.
O rapaz teimava em olhar fixamente lá para fora apesar de estarmos a percorrer os túneis e não se ver nada que não o escuro, a parede ou as luzes de outras carruagens que passavam no sentido oposto. Não olhou para mim uma única vez, e ao olhar lá para fora para perceber o que via ele vi o meu reflexo no vidro, e o facto de eu estar de saia, de perna cruzada dava-lhe motivo para ele olhar “lá para fora”. O meu primeiro reflexo foi o de descruzar as pernas e puxar o mais que podia a saia, mas nem os joelhos consegui tapar… Quem me manda vestir saias destas… O rapaz ao percebeu que eu havia reparado para onde ele olhava, e deu para perceber que ficou um pouco envergonhado, mas ao mesmo tempo sorriu embora sem nunca me encarar.
Os altifalantes anunciaram que estávamos a chegar à estação de Entrecampos, onde as poucas pessoas que estavam na carruagem saíram, com certeza para irem apanhar o comboio. Apenas o meu “voyer” se manteve sentado mesmo à minha frente. Teimava em não olhar para mim sem ser pelo reflexo do vidro. Passou-me pela cabeça mudar de lugar, mas deixei-me estar, estava a começar a achar piada a este jogo. Decido meter conversa com ele, e no preciso momento que vou começar a falar ele olha para mim pela primeira vez e tenta também meter conversa. Ambos ficamos atrapalhados e começamos a rir. Bom, o gelo estava quebrado.
- Desculpa, ias dizer qualquer coisa.
- Não era nada, eu interrompi-te.
- Pois... mas não era nada de especial, podes dizer.
- Não é nada demais, ia comentar que é curioso o facto de termos ficado aqui sozinhos.
- Sim, é verdade, nunca me tinha acontecido.
E voltamos a ficar em silêncio. Ele voltou a olhar lá para fora, para o escuro e eu como que a provocá-lo resolvi cruzar a perna e puxar um pouco da saia para cima. Ele nem sequer reagiu. Instantes depois o comboio afrouxou a velocidade e acabou por se imobilizar no meio do túnel. Eu confesso que fiquei um pouco assustada.
- Parámos?
- É normal, dentro em pouco o comboio arranca novamente.
Ficámos mais uns instantes em silêncio. Ele continuava a olhar-me pelo reflexo no vidro, e sem nunca sequer me encarar directamente. Ele já sabia que eu tinha percebido, mas isso já não o incomodava. Resolvi ver até onde ele estava disposto a ir.
- Já viste que mesmo que estivéssemos em apuros ninguém nos podia ajudar?
- Isso não é bem assim.
- Mas por exemplo, eu podia gritar e ninguém me iria ouvir.
- Gritar? Mas porque haverias de gritar?
- Foi um comentário... mas imagino uma ou duas coisas que me fariam gritar…
- Desculpa? Não te estou a perceber...
- Sim, gritar não tem necessariamente que ser para pedir ajuda. Há quem grite porque está zangado, porque está feliz, até porque está excitado.
- Porque está excitado?
- Sim, ou nunca estiveste com uma mulher que grite quando está excitada?
- Por acaso não... estive com uma que me cravava as unhas nas costas.... mas gritar não. Tu gritas?
- Depende.
- Depende do quê?
- Depende do prazer que estou a ter.
- Isto não me está a acontecer… - disse ele entre dentes.
- Sabes, toda esta situação não posso negar que me está a deixar excitada.
- Não me estás a deixar numa situação muito confortável…
- Não muito confortável? Sou assim tão feia que fiques com dúvidas?
- Feia? Muito antes pelo contrário. Não estava era à espera de toda esta situação.
- Se queres mesmo saber... nem eu. Não fiques com a ideia que sou uma mulher fácil, porque não o sou.
- Desculpa, não era isso que eu queria dizer.
- Mas como deves compreender... estou com dificuldades em acreditar que estou mesmo encalhado numa carruagem vazia, parada no meio do túnel, sentado em frente a uma mulher linda, que me diz estar excitada.
- Tirando nós dois a carruagem está mesmo vazia não está?
- Sim.
- O comboio está parado no meio do túnel não está?
- Sim.
- Dá-me a tua mão.
(continua)



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